Um dia, na escola onde trabalho, um professor disse-me que me analisava a minha íris para me diagnosticar maleitas da alma, do corpo e outras... Entre outras coisas, como um aparelho digestivo completamente disfuncional, um mau-feitio do caraças, este professor mal olhou para os meus olhos disse-me: «tu estás sempre a pensar, nunca páras!»
Não disse nada. Estou sempre a pensar? Claro que estou sempre a pensar! Mas isso não é normal? Pois ainda de tempos a tempos penso nisto que este senhor me disse. Certa vez olhei bem para o fundo dos olhos do meu namorado no meio daquelas conversas cheio de emoções e coisas complexas e pergunto no meio daqueles silêncios: «O que é que tu estás a pensar?» e ele responde: «nada» «NADA? COMO? NÃO É POSSÍVEL PENSAR EM NADA». «mas eu não estou a pensar em nada». eu não estava a acreditar naquilo que estava a ouvir! que ultraje!! que mentira descarada!!
Como devem estar a adivinhar o meu namorado em várias outras ocasiões em que eu, insistente, incrédula, lhe pergunto a mesma coisa, ele a mesma resposta pronta me atira (agora algo receoso): «não estou a pensar em nada».
Então, um dia pensei: «E SE ELE NÃO PENSA REALMENTE EM NADA!!!» que raio, como é que é o NADA? é branco? roxo? prateado?
E se tiver bolinhas?
Bem, se calhar eu realmente gero muitos muitos pensamentos por segundo, por centésimos de segundo. Que grande desperdício? Devem imaginar a porcaria que jorra. Imaginem no combóio para o trabalho : desde as unhas da minha vizinha do lado, à revista que lê o senhor que se vê pelo canto esquerdo, o olhar pardo da jovem com cabelo desalinhado, os óculos da moda do adolescente da frente, o relatório que tenho de entregar amanhã no trabalho, a azia da noite passada, a consulta que me esqueci de marcar, a notícia dos jornais "de deitar fora", o penteado do sócrates...
socorro